sábado, 17 de maio de 2014

Karaoquecídio

Claudinho era um rapaz pacato e tudo o que ele procurava, era sossego. Saiu da cidade grande para fugir do barulho. Assim foi para a sua casa de praia cujo local era tranquilo e silencioso. 
Ele só queria era ouvir o barulho do mar e o canto dos passarinhos. 
Certo dia, não de verão, coisas estranhas começaram a acontecer.  Claudinho foi acordado por seus vizinhos barulhentos buzinando exageradamente as 7h00 da manhã, em caravana, para avisar todos conhecidos e não conhecidos que estavam chegando à praia. Quando ele achou que ia voltar a dormir, iniciou-se a gritaria dos poluidores sonoros seguido de “bateção” de portas dos carros e porta-malas. Como seu merecido sono foi arruinando, Claudinho levantou-se e foi tomar café. Antes do primeiro gole, passou em sua rua um caminhão de político pedindo votos com uma paródia ridícula e um volume ensurdecedor. Nem bem recuperado do susto, outro político resolveu dar o ar de sua graça com uma musiquinha tão imbecil como a do seu concorrente e um volume competidor. Pior ainda era quando um caminhão trafegava em frente a sua casa e outro na rua de trás fazendo com que suas “melodias criativas” se encontrassem em cima dele.
De meia em meia hora passavam candidatos a alguma coisa chamando atenção dos moradores sem terem noção que em vez de votos eles poderiam levar pedradas. Entretanto, nem este intervalo dava-lhe o único beneficio que queria, o silêncio,  pois os recém-chegados abriram o porta-malas de um dos carros e ligaram o som, e aquilo que curtiam como música era um Funk da pior qualidade.
O dia foi passando e aquele barulho ia martelando a cabeça do Claudinho. Até que enfim, por um milagre, o silêncio. 
Ele pegou um livro para curtir aquele momento raro, mas nem chegou na metade da primeira página, outro vizinho, repetindo o que fazia todos os dias, soltou seus cães que sempre vinham até a cerca da casa do Claudinho para provocar os dele. Com isto, ele já estava até acostumado, mas este dia parecia estar tudo diferente. Os latidos eram de tudo que é jeito e adentravam sua moradia como se fosse uma guerra invadindo seus tímpanos. Na mesma hora ele pensou em soltar os seus cães para liquidar os invasores. Os audaciosos, que eram pequeninos e somente dois, não seriam páreo contras os três “cavalos” dele, mas ele pensou melhor:
– Tadinhos, eles não tem culpa da imbecilidade dos donos. E ainda, os meus poderiam morrer engasgados.
Os pestinhas, percebendo o perigo, foram embora e mais um momento de serenidade se instalou no ambiente.
Tudo parecia que o dia ia terminar bem. Os políticos deram uma trégua, os cães provocadores foram presos, e os “funkeiros” pareciam ter perdido a euforia.
No entanto, de repente, as 21h00 mais uma invasão sonora. Desta vez foram gritos assustadores. Depois de tentar descobrir quem estava morrendo, Claudinho percebeu que eram os “ex-funkeiros” que resolveram arrepiar no karaokê. Ele não sabia o que era pior: os políticos, a briga de cães, a buzinação ou esta coisa bizarra e grotesca que estava acontecendo naquele momento. Ele que nunca tinha visto tamanha desafinação e gritaria, pensou:
– Nossa! Eles estão fazendo tudo, menos cantando. Até uma gralha fanha faz melhor.
O tempo foi passando e o fôlego dos agressores ao meio ambiente não parava. Quanto mais desafinavam, mais continuavam a cantar, ou melhor, gritar.
Após quatro horas de tortura e já deitado tentando dormir, Claudinho deu um grito:
– Ahaaaaaarrrggh!
Ele saltou da cama, vestiu-se rapidamente, desceu as escadas em um só salto e correu para a garagem. Na passagem pela área da churrasqueira, apanhou os óculos de proteção que estava sobre a mesinha e colocou. Já na garagem, puxou uma enorme caixa da prateleira, arrancou a tampa desta caixa e com apenas uma mão empunhou a motosserra que lá estava guardada. Com a outra mão puxou a corda da ignição e soltou uma gargalhada tenebrosa, mas tão assustadora que daria inveja a qualquer narrador de filme de terror. 
Ele saiu de casa, atravessou a rua, fatiou o portão do vizinho e se encaminhou para os fundos onde rolava o ritual de sacanagem aos propínquos. Eles, empolgados com a cantoria medonha e o barulho do equipamento, não perceberam a invasão do morador adjacente e surtado.
Em respeito aos possíveis cardíacos e as pessoas sensíveis, vou poupá-los dos detalhes sórdidos, mas foi o maior, o mais brutal, pior e terrível “karaoquecídio” que o mundo já soube.
É! Tá bom. Foi o único. Porém, foi muito sangrento.
Coincidentemente a gota final de gasolina se foi com última vítima.  Então, encerrando o massacre, ele jogou a motosserra contra o aparelho barulhento liquidando com o som e retornou para sua casa calmamente e aliviado. Ele tirou os óculos e as roupas sujas, jogou-os na lavanderia, subiu as escadas para tomar um banho e deitou.
Mesmo ciente que esta poderia ser a última noite em sua cama, ele dormiu sorrindo.
Na manhã seguinte, ele levantou como se acordara de um pesadelo, iniciou seu café sossegado sem barulho de vizinhos, políticos, cães e etc. Era o mais puro e invejado silêncio. Silêncio? Ele entendia a ausência dos “ex-cantores”, mas nem de longe, apesar de não ser o horário da briga com os seus, escutava os cães chatos. E cadê os políticos que não davam trégua? Até os seus cachorros estavam em um sono profundo.
Intrigado com o silêncio, ele olha para o chão da lavanderia e nada encontra, mas de relance vê algo e volta o olhar espantado para as suas roupas limpíssimas penduradas no varal cujo perfume do amaciante ele sentia de onde estava. Correu para conferir a motosserra na garagem e a encontra sem vestígio algum da chacina. Na volta repara os óculos limpinhos em cima da mesinha e sem entender pensa:
– Será que eu sonhei? Acho que sim, mas eu tenho certeza. Foi tão real.
Um tanto aliviado, retornou para o seu café quando palmas soaram em frente a sua casa.
Era a polícia.
– Pois não!
– Senhor! Houve um massacre na casa em frente. Ao que indica foi um ataque de uma serra elétrica. O senhor viu ou ouviu alguma coisa?
– Não! Apenas barulho de pessoas cantando e música muito alta.
Ele não poderia se entregar sem ter certeza. Afinal, as evidências de que cometera o crime não existiam, e ele, já confuso em relação ao tempo do massacre e o momento do banho, pensava que só podia ter sido um sonho.
– Tudo bem senhor. Todos os vizinhos disserem o mesmo. Se lembrar de algo, por favor procure a polícia.
Passado alguns dias, Claudinho convencido de realmente ter tido um pesadelo e alguém ter executado o seu sonho matutou:
– Será que tenho poderes de premonição?  Por que sonhei comigo mesmo? Sei lá, mas que este silêncio está bom, ah isto tá.
Então, alguém com voz bem baixinha chamou-o no portão:
– Carteeeiro.
O tom era tão baixo que Claudinho só percebeu que tinha gente chamando porque seus cães estavam recebendo o rapaz com toda tradicional hospitalidade canina em recepção aos fiéis agentes da correspondência.
Ele se aproximou e perguntou:
– Por que não bateu palmas?
– Eu não quis incomodar – falou o carteiro com voz trêmula.
Ele saiu rapidamente após entregar a carta que Claudinho abriu imediatamente e leu...

“Caro vizinho:
          Obrigado por nos livrar dos barulhentos.
          Ninguém mais aguentava aqueles assassinos da música.
          O senhor foi o único que teve coragem de fazer o que todos queriam.
          Não se entregue, mesmo que todos saibam quem foi.
          Estamos juntos nesta. É o nosso herói.
          Até os políticos evitam de passar perto daqui e o vizinho mala dos cachorros se
          mudou correndo naquela manhã.
          Desculpa por termos invadido sua casa e o sonífero dos cães.
         Precisávamos limpar as provas do crime.

          PS: Por que a motosserra?”

Após ler, ele sorriu e respondeu olhando para a carta:
– Porque eu não tenho uma metralhadora.

* Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança é a mais pura vontade de ser realidade.

9 comentários:

  1. kkkkkkkkkkkkkkk
    Ai ai, uma verdadeira comédia.
    Nesse caso, talvez (só talvez) eu teria ajudado a sumir com as provas do crime. Rsrsrs
    Muito bom o conto, parabéns!

    O POETA E A MADRUGADA
    opoetaeamadrugada.blogspot.com

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  2. Kkkkkkkkkk' Adorei.
    Muito engraçado esse conto. Mas é a pura realidade, quem nunca teve vontade de massacrar os vizinhos barulhentos?
    Parabéns a quem escreveu!! ^^
    Bjs.

    http://creepybeauty.blogspot.com.br/

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  3. Boa tarde amigo Cláudio!!!
    Você é fera...adoro ler seus textos...esse me fez rir...apesar que fiquei com medo...kkkkkkkkkkkk
    Tenha um final de semana muito feliz e abençoado!!!
    Abraços da Bia!!!

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  4. LOL hey Claudio, agora me deu medo ... meu som esta a mil aqui , se tem uma coisa que gosto no Sábado é chegar do trabalho é ouvir música , alta, más já estive na vizinha e não se ouve muito kkkkkkkkk.
    Parabéns pelo post muito bem escrito , adorei a foto ..bjs!!!

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  5. Olá Claudio, boa noite! Meu amigo esse me tirou o folego. Não gosto nada, nada, de histórias de terror. Mas aqui foi uma luta do bem contra o mal com a união de todos.Querer um tranquilo para se morar, e viver em paz, e se ver num tumulto desses é demais...Parabéns pela bela escrita.
    Beijos com carinho
    Marilene

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  6. Muito bom.
    Quem dera eu tivesse esta coragem he he he

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